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Dia das mães - Kayra Orciolli
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Especial Dia das Mães: Larguei o emprego para cuidar da minha filha

Até o domingo, Dia das Mães, o blog da Grão de Gente abre espaço para histórias de mães que tiveram que se desdobrar pela maternidade. Ser mãe é se reinventar, amar os filhos sem que nenhuma barreira possa quebrar a conexão entre os dois. As histórias que serão contadas refletem realidades que poderiam pertencer a qualquer uma de nós, e como esse amor incondicional é forte e capaz de qualquer coisa.

A história a seguir é um exemplo de como a luta por um filho ou filha ultrapassa todos os limites que imaginamos que estão demarcados quando nos tornamos mães pela primeira vez. Não importa o quanto nos preparamos para esse momento, sempre haverá desafios para superar e provar que mães, realmente, são capazes de tudo.

O Dia das mães celebra todas as formas de amar os filhos

Dia das mães - Kayra Orciolli

Meu nome é Kayra, tenho 31 anos, sou mãe da Gabriela de 3 anos.

“Sou casada, formada em Logística Empresarial, com pós-graduação em Negócios Internacionais. Com nossa vida estabilizada financeiramente, nos programamos para ter um filho. Durante toda minha gestação, eu lia diversos livros sobre maternidade, amamentação entre outras informações do mundo em que viveria. Frequentei cursos primitivamente preparada. Tudo já estava programado na minha cabeça, incluindo as férias no serviço que deixei vencer para poder ficar mais um mês em casa junto com a licença maternidade.

Trabalhei até uma semana antes dela nascer, para ganhar mais dias na licença. Gabi nasceu de cesária sem complicações. Logo tivemos alta e eu colocaria em prática tudo que havia lido, escutado e assistido. A pega no peito foi tranquila e a amamentação era por livre demanda. Eu realmente amava amamentar e estava segura que amamentaria por muito tempo. Vivemos os primeiros três meses com muitas descobertas, eu ainda em transe com tanto amor,  admiração e felicidade por ter aquela linda bebê tranquila que adorava mamar enquanto eu a admirava. Obviamente estava cansada, mas feliz, muito feliz.

Entretanto, com quatro meses, após alguns sintomas de dores e assaduras constantes e o aparecimento de uma ferida no ânus da bebê, iniciamos a nossa jornada em busca de profissionais que nos ajudassem a diagnosticar o que estava acontecendo com ela.

Foram longos dias de dor, de choros constantes e de desespero. Os médicos pediam exames, me orientaram para que eu seguisse uma dieta sem leite e derivados. Fiz a dieta por um mês. Ao longo dos dias, a médica pedia para eu cortar mais itens como grãos, glúten, frutos do mar e soja. Gabi completou 5 meses e estava no auge das crises, sem apresentar melhora,  a ferida ainda não tinha cicatrizado, nossas noites e dias eram exaustivos e desesperadores. Faltava apenas um mês pra eu voltar ao trabalho.  

“Iniciamos a nossa jornada em busca de profissionais que nos ajudassem a diagnosticar o que estava acontecendo com ela.”

Após o resultado de alguns exames, recebemos o primeiro diagnóstico: Doença de Crohn. Com urgência nos encaminharam ao Hospital São Paulo, na capital, para a ala especializada dessa doença. Passei aquela noite inteira pesquisando na internet que droga de doença era essa que eu nunca tinha nem escutado falar, que me tirou do controle com minha filha, que tirou toda a segurança que eu tinha com a maternidade, que a fazia sofrer tanto e eu não podia ajudá-la! Isso não estava escrito em livro nenhum, e eu me vi pela primeira vez sem saber o que fazer. No dia seguinte chegamos ao hospital, refizemos alguns exames e, na colonoscopia, identificaram 19 úlceras no intestino e uma no ânus da minha bebê.  Apesar de nem todos os exames terem dado positivo, afirmaram o diagnóstico da doença de Crohn e começaram as orientações de como seriam os tratamentos. Um deles era cortar a amamentação de imediato e entrar com fórmulas de aminoácidos, ganhei 2 latas no fim da consulta.

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Aquilo me chocou, voltei pra casa desorientada, sem acreditar que não poderia mais amamentá-la. Eu tinha me preparado tanto pra isso, pensava no que faria quando voltasse a trabalhar, como iria conseguir deixar minha filha naquela situação nas mãos de outra pessoa, se a única coisa que eu podia fazer por ela naquele momento era acalmá-la no meu colo para que esquecesse um pouco a dor que sentia.

“Foi uma decisão difícil, mas ao mesmo tempo, um alívio para o meu coração.”

Naquela tarde, após chegar em casa, conversei com meu esposo e decidi ir em busca de uma segunda opinião. Eu tinha pouco tempo para isso, então comecei a pesquisar médicos referenciados em São Paulo e marquei a consulta particular. Nosso convênio não nos dava direito a esses médicos, por isso decidimos que não mediríamos esforços para encontrar o melhor médico, o melhor tratamento e mais eficaz. Assim  gastamos todas as nossas economias, com consultas, exames e o que fosse necessário para seu tratamento.

Após mais algumas consultas e exames, o médico com quem buscamos  a segunda opinião chegou a um diagnóstico diferente: FPIES (Food Protein Induce Enterocolitis Syndrome). Uma síndrome que pode ser desencadeada por uma proteína alimentar nociva ao sistema imunológico e gastrointestinal imaturo de uma criança. Obviamente um diagnóstico delicado, porém, com um tratamento mais leve e longo, exigindo extremo cuidado com contatos e alimentação e também a retirada do peito para a fórmula de aminoácidos.

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Saí da consulta aflita, sem saber em qual médico acreditar, tendo em minhas mãos a primeira missão de decidir sobre uma pessoa dependente de mim e que estava sofrendo, precisando de um tratamento rápido. Pedia a Deus para me orientar, estava na condição que jamais queria estar, tudo que tinha idealizado, tudo que sonhei sobre maternidade estava longe do que vivíamos naquele momento. Faltavam 10 dias para voltar ao trabalho e eu me deixei levar por um grande sentimento de culpa, me perguntando se errei em algum momento, achando que poderia ter feito algo de diferente para evitar aquela situação.

Comecei a me questionar como mãe. Já não podia mais amamentar, meu leite secou em 2 dias e senti a dor na alma. Ela não iniciaria o processo de alimentação, se alimentaria exclusivamente da fórmula por pelo menos 9 meses, até que todas as úlceras estivessem cicatrizadas e que ela não sentisse mais dores.

“Eu não voltaria a trabalhar, me dedicaria ao seu tratamento e a estar com ela integralmente até que estivesse bem.”

Eu voltaria a trabalhar sem iniciar o processo de alimentação. Após uma longa conversa com meu esposo, decidimos optar pelo tratamento do segundo médico, e rezar para que procedêssemos com a melhor escolha e que eu não voltaria a trabalhar, me dedicaria ao seu tratamento e a estar com ela integralmente até que estivesse bem. Foi uma decisão difícil, mas ao mesmo tempo um alívio para o meu coração. Saí da empresa com um misto de sentimentos e segui na minha maior e mais difícil missão.

Durante seu primeiro ano, nossa rotina era consultas médicas, exames, tratamentos, leitura de rótulos, pesquisas na internet, participação em grupos de mães que enfrentavam o mesmo problema com seus filhos e me fortalecendo para enfrentar a sociedade, as pessoas que devido à ignorância, tentava colocá-la em risco constantemente oferecendo alimentos que ela não poderia consumir. Obviamente, nosso orçamento despencou. Eu já não colaborava financeiramente.

Durante esse período em casa eu empreendia para poder ter uma pequena renda pessoal e uma atividade paralela à maternidade. Atuei na área de vendas pela internet, produção de bolos de pote e bolos naked cake, e fazia cursos rápidos aos sábados para me profissionalizar.

“Consegui criar forças para enfrentar a ignorância e a falta de empatia por quem jamais imaginou nossas madrugadas.”

Na maternidade eu tentava trazer pra mim sentimentos de agradecimento e passar para a Gabi a consciência das suas limitações e fazer disso o menor peso possível perto de tantas outras coisas que ela podia comer e viver. Mas Deus foi tão bom que ela já veio pronta pra essa caminhada. Sua força é muito maior do que a minha, sua consciência, sua compreensão e obediência em acreditar e respeitar tudo que a gente conversava. Conseguimos tirar o peso dos olhares de dó, conseguimos compreender quando alguém esquecia e oferecia algo para ela, consegui criar forças para enfrentar a ignorância e a falta de empatia por quem jamais imaginou nossas madrugadas e a dor da culpa que carreguei por tanto tempo dentro de mim.

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Escolhas foram necessárias, traçamos novos planos e novos caminhos e criamos um vínculo de confiança tão grande, mas tão grande, numa proporção que eu jamais imaginei alcançar. Nos tornamos amigas, parceiras. Não tive pressa em nenhum desenvolvimento dela, todos os processos foram respeitando o seu tempo.

Aos dois anos e nove meses, ela me pediu para ir à escola. Hoje aos três anos de idade, Gabriela venceu lindamente sua batalha, está limpa da alergia, operou a fissura que ficou no ânus, frequenta a escola, faz capoeira e vive a vida sempre com seu lindo sorriso no rosto. Atualmente, eu sigo fazendo outra pós-graduação on-line para me recolocar no mercado de trabalho.

Como eu me sinto quando olho para trás? Me sinto orgulhosa, privilegiada e agradecida, muito agradecida por ter tido a chance de viver esse período intensamente com a minha menina.

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