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História da Amamentação: Um ato instintivo? Ou cultural?

A amamentação é o assunto em destaque durante o Agosto Dourado no Brasil, período que visa a conscientização da importância do aleitamento materno para a saúde e desenvolvimento do bebê. Mas por que será que é preciso um campanha tão intensa para reforçar algo que, na teoria, é instintivo do ser humano? Por isso, vamos explorar algumas nuances da história da amamentação para entender o que houve no passado para chegarmos até os dias de hoje, quando o ato de amamentar um bebê levanta tantos debates e polêmicas.

Amamentação na Antiguidade

Acredita-se que todas as mães da Antiguidade amamentaram. Desde as histórias de deusas mitológicas até as camponesas foram retratadas amamentando seus filhos. Até mesmo Maria, mãe de Cristo, o alimentou com leite materno. Naqueles tempos, a amamentação simbolizava a dedicação da mãe para com seu filho, uma graça considerada “divina”. Era uma atividade vivida de forma coletiva, com uma rede de mulheres se apoiando no ato de alimentar os bebês.

história da amamentação

E como ainda era considerada uma relação íntima, a amamentação era restrita a apenas mães e filhos. Mesmo as grandes damas gregas, que reservavam todos os demais cuidados para uma servente ou escrava, amamentavam em sua maioria. Mas pouco tempo depois isso mudou, especialmente quando a história chega às romanas.

Seus filhos eram amamentados por uma nutriz, quase sempre escrava. E a razão é puramente paternalista: as mulheres precisavam estar prontas logo para uma nova gravidez e a amamentação tomavam muito do seu tempo. E para manter essa tradição, até médicos apoiavam esse modelo.

Há registros de um médico que viveu no século II depois de Cristo, chamado Soranos, onde afirma que o leite materno é o melhor alimento para a criança, desde que seja amamentada por outra mulher e não a mãe que a carregou na barriga. O médico chega a definir um modelo “ideal” de nutriz, cuja descrição pode ser encontrada em outros documentos da história da amamentação até o século XIX.

história da amamentação

História da Amamentação do ponto de vista sexual

Também acredita-se que o modelo adotado pelas mães da Antiguidade – que entregavam seus filhos para outras mulheres amamentarem – tem ligações com a proibição de relações sexuais durante o aleitamento.

Acreditavam que o sexo estragaria o leite ou o faria secar. Também não seria adequado para os homens compartilhar o afeto dado ao recém-nascido, pois afirmavam que não seria possível que a mulher fosse amante e nutriz.

E como o aleitamento cessava o fluxo menstrual da mulher e, consequentemente, sua fertilidade, amamentar seus filhos a impediam de engravidar com rapidez novamente. O que não seria saudável para o seu casamento, especialmente diante da baixa expectativa de vida na época.

Cristianismo

O tabu sobre as relações sexuais durante a amamentação era ainda apoiado pelo Cristianismo, que “alertavam” as mulheres a entregar seus filhos para uma nutriz amamentar, se não quisessem que seus maridos praticassem adultério. Os padres chegavam a recomendar castidade, que dava ainda mais “poder” para os homens.

Decisão era do homem

Em Florença, na França, encontraram contratos de nutrição, que datam do século XIV ao XVI. Sempre assinados por dois homens (o pai do bebê e o “alimentador”, marido da ama de leite). As mulheres não aparecem nos documentos, mas há registros de que a partir do nascimento do primeiro dente do bebê, a nutriz poderia fazer o desmame.

Enquanto isso, o pai do bebê firmava seu papel de “igualdade” com a esposa, impondo sua posição soberana a respeito de todas as decisões sobre a família e reafirmando a obediência que a mulher lhe devia.

Amamentação no papel de classes

Analisando todo esse panorama da história da amamentação, com os contratos entre as famílias mais ricas e as famílias que se dispunham a nutrir os bebês (quase sempre formadas por camponeses pobres), a amamentação logo se tornou um dos pilares da comunidade feudal.

O afeto desenvolvido das crianças com as amas de leite e logo com seus “irmãos” de leite formavam um parentesco simbólico, tanto que eram proibidos de se casarem entre si. Mas há um fardo difícil de ser carregado por essas mulheres: se seus filhos de leite apresentavam qualquer problema de saúde ou comportamento, era comum que a culpa fosse dela.

Também era uma prática rotineira a venda e compra de amas de leite que, por muitas vezes, eram afastadas de seus próprios filhos para poderem cuidar e amamentar as crianças das famílias abastadas.

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Nobreza

Mais tarde, com o crescimento das cidades e a posição de prestígio das ricas famílias burguesas, a amamentação continuava sendo vista como uma tarefa para uma empregada e não um hábito à altura das senhoras nobres. A elas, seus filhos deviam apenas respeito e uma relação distante.

Enquanto bebês, as crianças eram amamentadas por camponesas pobres e, na maioria das vezes, tinham que morar com elas no campo, enquanto seus pais viviam a rotina luxuosa na cidade. E após o desmame, eram enviados para instituições de ensino longe de casa ou criados por governantas.

Revolução Industrial

No final do século XVIII, até as famílias mais modestas entregam seus filhos a nutrizes. Mas a razão é a Revolução Industrial, que levava as mulheres para o trabalho nas fábricas e ocupa o tempo que elas teriam para amamentar. A amamentação vira uma profissão para muitas mulheres, que têm pouco para sobreviver. É a partir daí que a indústria da nutriz começa a se firmar como um importante elo da sociedade e, logo, passa a sofrer desconfianças.

Com a pobreza acentuada, como essas mulheres poderiam cuidar bem dos filhos da nobreza? Por isso, no século XIX, a nutriz passa a ser contratada para ficar na casa da família. A mudança também serve para garantir a qualidade do leite, de uma mulher bem tratada, porém domesticada.

A mamadeira

No início do século XX, quando o leite pasteurizado se torna adequado para o ser humano, especialistas começam a testar essa nova fonte de alimento em bebês, com inclusão de farinhas e outros engrossantes. Com isso, a mamadeira abala a “indústria da nutriz”, com a necessidade apenas do “produto” e não mais do corpo da mulher. Não é preciso mais que a criança mame no peito de uma estranha, mas apenas que o seu leite seja oferecido na mamadeira.

É graças à mamadeira que os médicos veem a chance de estudar a quantidade e a qualidade do leite que a criança precisa, em diferentes idades. E toda essa “ciência” inicia os mitos que nos cercam até hoje:  não pode dar mais de seis mamadas por dia, limitadas há quinze minutos cada, com intervalos regulares e à noite, seis a oito horas de repouso total, entre outras recomendações. Não demora muito para os produtos para a alimentação artificial de bebês se firmarem com um dos principais elos da indústria farmacêutica no século XX. 

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O poder de escolha

Apesar de listarem os “benefícios” do leite em mamadeiras, os médicos continuavam a lembrar que o leite materno é o melhor alimento para o recém-nascido. Chegam a afirmar que a mulher tem poder de escolha, mas investem alto no marketing dos seus produtos, cada vez mais modernos. As fórmulas lácteas começam a ser reconhecidas como um substituto seguro (e controlável) ao leite materno.

Nas casas de parto, as mulheres se vêem influenciadas pelos costumes de cada parteira. Algumas incentivam a amamentação, outras já recomendam a mamadeira. Mas de qualquer forma, ao voltar para casa, se veem sozinhas, sem informações de como amamentar. Apelar para as práticas mamadeiras se torna comum. E logo chegamos ao feminismo. Os movimentos que tomaram força nos anos 1970, com a pílula anticoncepcional e a liberdade sexual, desqualificam a amamentação, como um cuidado materno vergonhoso.

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Vida moderna

Com a indústria farmacêutica oferecendo versões cada vez mais “completas” de leite artificial e o colocando como um sinal de prestígio entre as mulheres dos grandes centros urbanos, a amamentação continua a se restringir às mulheres mais pobres. Essa desvalorização foi direcionada pelo estilo de vida e não pela saúde.

Mas logo estudos começam a descobrir o poder do leite materno na redução da mortalidade infantil, entre muitos outros benefícios, que o qualificam como um alimento único. Porém, mesmo em tendo em vista os benefícios do aleitamento, o número de mulheres que trabalham fora não pára de crescer. Como amamentar um bebê, com pouco tempo de licença-maternidade e ainda correndo o risco de ser demitida?

É a realidade que vivemos hoje. Mesmo as mulheres que têm seis meses de licença ainda enfrentam dificuldades com falta de apoio em continuar com o aleitamento até os dois anos ou mais da criança, uma recomendação clara da Organização Mundial da Saúde (OMS).

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Precisamos reforçar o valor da coletividade e do apoio na amamentação. Com informação, as mães atuais conseguem mais força e disposição para enfrentar a jornada da amamentação e garantir um futuro com mais saúde para seus filhos.                                                 

*Essa matéria sobre a história da amamentação foi escrita com base no artigo francês “Dictionnaire de la Pensée Médicale”.

 

Leia mais:

Especial Agosto Dourado: Amamentação, a base da vida

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Comentário
  • Adorei a matéria!
    Pena que meu filho parou de mamar no peito assim que voltei a trabalhar, com 5 meses e tive que recorrer a fórmula.

    10 de agosto de 2018

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